Que efeitos cardiovasculares tem a prática de sexo?

Inês Fernandes

Médico/a

A atividade sexual é um componente importante da qualidade de vida de qualquer pessoa: não só tem o efeito psicológico de melhorar a saúde mental e o humor, como também tem um efeito fisiológico no nosso corpo, através da ação de diferentes substâncias químicas.

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Vários estudos até à data têm estudado os efeitos cardiovasculares e neuroendócrinos durante as relações sexuais.

Sabe-se que, a nível neurológico, as fases de excitação, ereção, ejaculação, orgasmo, período refratário e resolução dependem em grande parte do nosso sistema nervoso autónomo1, predominantemente parassimpático no homem e simpático na mulher. A nível cardiovascular, os efeitos são muito variáveis.

O que acontece a nível cardiovascular durante a prática de sexo?

Durante a fase de foreplay (preliminares), a pressão arterial e a frequência cardíaca aumentam ligeira e progressivamente e, à medida que a excitação sexual se intensifica, estes valores aumentam cada vez mais. Verifica-se que o pico destes valores é durante os 10-15 segundos do orgasmo e é raro que estes excedam os 170 mmHg de pressão arterial sistólica e 130 bpm de frequência cardíaca, havendo em seguida um rápido retorno aos valores basais.

Efeitos cardiovasculares da prática de sexo - orgasmo

Em comparação com o exercício aeróbio, verifica-se que o sexo tem um desgaste calórico inferior. Os estudos indicam uma média de 101 calorias nos homens e 69 calorias de mulheres, durante 30 minutos da prática de sexo (ou seja, uma média de 3,6 calorias por minuto). Pelo contrário, os mesmos 30 minutos de exercício aeróbio, como uma corrida a um ritmo de cerca de 8km por hora, originam um gasto calórico médio de 213 calorias nas mulheres e de 276 calorias nos homens.

Considera-se então que a atividade sexual em homens jovens com a/o parceira/o habitual é comparável a uma atividade física leve a moderada (o equivalente a 3 a 4 METS2, ou seja, a subir dois lances de escada ou caminhar rapidamente num curto período de tempo). No entanto, em homens mais velhos, com menor aptidão física, e por vezes com mais fatores de risco cardiovascular ou mesmo doença cardiovascular, o esforço durante a atividade sexual normalmente é maior.

Que complicações cardiovasculares pode o sexo ter?

Em homens mais velhos e/ou com menor aptidão física, a exigência do sistema cardiovascular é maior e, por vezes, pode ocorrer aquilo a que se chama de angina3 coital ou angina d'amour. Esta é caracterizada por uma dor precordial que ocorre durante os minutos ou horas após a atividade sexual e representa cerca de <5% de todos os ataques, sendo mais vista em indivíduos sedentários com doença arterial coronária.

Sexo e efeitos cardiovasculares - idosos

Também se sabe que o risco relativo de enfarte cardíaco é cerca de 2,7 vezes superior em homens na faixa etária dos 50s e 60s e mais sedentários e que o risco absoluto associado a 1 hora de atividade sexual por semana é estimado em cerca de 2 a 3 por 10.000 pessoas/ano.

No entanto, dado que a atividade sexual é uma atividade de relativa curta duração e o tempo total em risco de isquemia miocárdica (ou seja, o tempo em risco de ter falta de sangue) é pequeno, a prática de sexo acaba por ser a causa de menos de 1% de todos os enfartes cardíacos.

Relativamente ao efeito da atividade sexual em pessoas com fatores de risco de arritmias cardíacas4, sabe-se que o risco absoluto de morte súbita associado a 1 hora de atividade sexual adicional por semana é mínimo e comparável a um esforço físico ou mesmo esforço/stress mental.

Recomendações para a prática de sexo

É recomendado que as pessoas com doença cardiovascular pré-existente ou recém diagnosticada, ou mesmo aqueles que têm risco cardiovascular desconhecido, que desejem iniciar ou retomar a atividade sexual, sejam vistos por um profissional de saúde. Através de uma história clínica completa, exames físicos objetivos e exames complementares de diagnóstico, é possível avaliar a capacidade de exercício e o risco de desenvolvimento de sintomas de isquémia, cianose, hipotensão ou arritmias cardíacas.

efeitos cardiovasculares da prática de sexo

Um aspeto a destacar é que fatores de risco e doenças cardiovasculares estão muitas vezes associados a um comprometimento da função sexual masculina, especificamente à disfunção eréctil. Muitas vezes, o próprio tratamento com drogas anti-hipertensivas pode afetar a prática de sexo, por isso, é importante que estas situações e possíveis preocupações e problemas sexuais sejam aconselhados e/ou tratados e que tenham um acompanhamento adequado.

Homens e mulheres sem doença cardiovascular ou com doença cardiovascular estável, com sintomas mínimos ou sem sintomas no seu dia-a-dia, podem praticar sexo normalmente sem restrições. No entanto, em pessoas com doença cardíaca instável ou descompensada (como angina instável, insuficiência cardíaca descompensada, arritmia não controlada ou doença valvular significativa, sintomática e/ou grave), a atividade sexual não é recomendada e deve ser adiada até indicação do médico. Nestes casos, uma reabilitação cardíaca e a prática de exercício regular podem ser uma boa estratégia para reduzir o risco de complicações cardiovasculares com a prática de sexo.

Glossário:

1Sistema nervoso autónomo: conjunto de nervos com fibras sensoriais e motoras, que controlam de maneira inconsciente várias funções do nosso corpo vitais e fundamentais à homeostasia do corpo. Estas vão desde processos digestivos à secreção de algumas glândulas, função respiratória, atividade cardiovascular e temperatura corporal, entre outros.

2METS: é uma forma simplificada de caracterizar e tentar quantificar o custo energético de determinadas atividades físicas. É definido como um múltiplo da taxa metabólica de repouso (igual à quantidade de oxigénio consumida em repouso, que pode ser calculada através desta simples equação: 3,5 ml de O2/kg de peso corporal x minuto)

3Angina: desconforto ou dor torácica temporária, do tipo aperto, de intensidade variável, geralmente com duração limitada, que ocorre durante o esforço físico e desaparece após alguns minutos de repouso.

4Arritmias cardíacas: perturbação da condução elétrica do coração, que faz com que este funcione de forma inadequada e/ou descoordenada, originando um ritmo de batimento irregular e podendo originar problemas a bombear o sangue para a circulação sistémica.

Referências:

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Inês Fernandes

Médico/a

Médica e apaixonada pelo fitness. Dedica muito do seu tempo a fazer os seus próprios treinos, baseando-se na eficácia de exercícios e em resultados de estudos científicos, procurando assim combiná-los com exercícios complexos, pouco comuns e desafiantes. Pretende ainda tirar um curso de Personal Trainer durante o internato médico, aliando as duas coisas que mais gosta de fazer na vida: curar pessoas e ajudá-las a atingir uma boa forma física!

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