Proteína em excesso e problemas renais: existe perigo?

Sérgio Veloso

Nutricionista

Uma das maiores preocupações de quem segue uma dieta hiperproteica é a possível implicação a nível da função renal - uma associação anedótica que vem já de longe. Os poucos estudos em pessoas saudáveis não suportam esta perspetiva de que um consumo proteico acima da norma possa afetar negativamente a função renal. Mas embora não existam evidências de que a proteína seja um fator causal, a possibilidade teórica de um efeito agravante não deve ser menosprezada.

O primeiro autor a apresentar uma argumentação séria e plausível a favor do efeito adverso da proteína na função renal foi Brenner, em 1982, que postulou que o consumo elevado de proteína poderia levar à danificação dos rins através de um aumento da pressão intra-glomerular. Esse stress hemodinâmico provocaria alterações patológicas nos rins que, com o tempo, levariam a uma esclerose progressiva e declínio da sua função. De facto, o consumo de proteína aumenta a taxa de filtração glomerular (GFR). Além disso, uma dieta rica em proteínas parece agravar indicadores comuns da função renal em indivíduos com doença pré-existente. No entanto, é importante sublinhar a diferença entre estar relacionado com um agravamento de indicadores da progressão da doença já instalada, e ser um fator causal na sua patogénese.

Estudos sobre o efeito da proteína

O efeito a longo prazo das dietas hiperproteicas foi estudado pela primeira vez em 1999, pela equipa de Arnie Astrup. Até então, os esforços estavam centrados em estudar o efeito da proteína na doença renal estabelecida e não na sua relação causa-efeito. Infelizmente, não foram realizados muito mais estudos sobre a questão, e menos ainda a longo-prazo, complicando as hipóteses de uma análise rigorosa e conclusiva.

Astrup recrutou 65 indivíduos com um IMC entre os 25 e os 35, e idades entre os 18 e 56 anos, saudáveis e com uma GFR normal. O estudo teve a duração de 6 meses e os voluntários foram divididos aleatoriamente em 3 grupos: um grupo com 25% da energia derivada da proteína (HP), outro com 12% (LP) e um grupo controlo. De acordo com a hipótese de Brenner, foi verificada uma maior GFR na dieta HP, acompanhada por um aumento no volume dos rins. Embora à primeira vista isto possa parecer um efeito adverso, o aumento de volume renal parece ser uma adaptação normal à carga proteica, de forma a manter uma GFR específica constante (GFR por unidade de volume renal). O autor concluiu que os rins se adaptam ao consumo elevado de proteína sem indicações de um efeito adverso na sua funcionalidade.

Para além do estudo de Astrup, foi também demonstrado que uma dieta hiperproteica não provoca efeitos deletérios na função renal e hepática de roedores, e que consumo de proteína até 2.8 g/kg não afetam a capacidade de filtração dos rins em atletas. Na verdade, doses bem superiores (> 4 g/kg) foram já testadas em conjugação com treino de resistências sem qualquer efeito deletério verificado. Um regime hiperproteico, na duração dos estudos efetuados, parece segura para indivíduos saudáveis, atletas ou não. No entanto, ser sedentário ou praticar exercício, e em particular de resistências, são dois contextos totalmente distintos e que devem ser analisados de acordo. O maior aproveitamento da proteína para síntese proteica, não canalizada para vias degradativas e de excreção, deverá aliviar o papel dos rins. Na verdade, estudos em ratos sugerem que o treino de força impede a hipertrofia renal muitas vezes associada às dietas hiperproteicas.

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Embora seja tentador afirmar que o risco de doença renal crónica não é influenciado pelo consumo proteico, é uma assunção que não podemos fazer de ânimo leve. Em primeiro lugar, a duração limitada dos estudos não permite tirar conclusões com elevado grau de certeza relativamente à segurança a longo-prazo (> 1-2 anos). Além disso, em estudos como o de Astrup, com indivíduos com excesso de peso e obesidade, a quantidade de proteína é dada em % de energia e não em quantidade total. Como os grupos foram submetidos a dietas hipocalóricas, é possível que 25% da energia não represente um consumo muito elevado de proteína no seu total.

De uma análise breve à evidência, podemos concluir que não existem provas de um efeito deletério das dietas hiperproteicas na função renal, embora muitas vezes sejam acompanhadas por uma adaptação estrutural dos rins. Mas, em indivíduos de risco ou com doença renal prévia, poderá ser importante manter um consumo moderado de proteína de forma a abrandar a sua progressão. Uma vez que, nos estádios iniciais, a deterioração da função renal é “silenciosa”, é também aconselhável que se faça o despiste antes de ingressar num regime hiperproteico.

Conclusão

Em resumo, as dietas hiperproteicas parecem ser seguras dentro dos limites razoáveis em indivíduos saudáveis, que se poderão situar nos 2-2.5 g/kg, ou mesmo mais, por períodos específicos e dependendo do objetivo quando associadas a treino de força. Poderá ser uma estratégia eficaz de otimização da composição corporal, perda de peso, ou ganho de massa muscular. De qualquer forma, a monitorização da função renal deve ser feita periodicamente. A insuficiência renal é assintomática nas fases iniciais - a altura ideal para um diagnóstico atempado e prognóstico favorável da doença.

Sérgio Veloso

Nutricionista

Sérgio Veloso é licenciado em Biologia Celular e tem uma pós-graduação em Nutrição Clínica, tendo nos últimos anos lecionado várias acções formativas na área da Nutrição Desportiva e Funcional. É ainda consultor na área do fitness e da indústria de suplementos alimentares, e palestrante em vários congressos Nacionais e Internacionais.

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